FONTE: BLOG ACÍDIADEPRE
quinta-feira, 22 de maio de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
Depressão, álcool e vida íntima invadida. Veja os dramas de Ian Thorpe

A luta contra uma
forte infecção que pode causar a perda dos movimentos do braço esquerdo está
longe de ser a única batalha na carreira do polêmico pentacampeão olímpico Ian
Torphe. A vida do australiano tem batalhas contra depressão, alcoolismo e até
de questionamentos sobre sua sexualidade.
Há cerca de dois meses, o atleta de 31 anos deu entrada
em uma clínica privada para tratar de
depressão depois de ser encontrado pela polícia local em estado de atordoamento
pelo uso excessivo de medicamentos.
Os problemas
psicológicos também foram os responsáveis pela aposentadoria precoce que teve
em 2006, aos 24 anos, quando decidiu parar alegar estar desmotivado. Depois, veio à tona que a interrupção foi pelo uso
excessivo de álcool e forte depressão.
Há pouco mais de um
ano, ele lançou uma biografia em que revelava os problemas psicológicos que
teve e que aventou a possibilidade de fazer algo pior. "Até pensei em lugares concretos ou um modo específico de cometer
suicídio, mas sempre recuava ao perceber que era ridículo... Poderia ter
cometido suicídio? Olhando para trás, acredito que não, mas existiram dias na
minha vida que mesmo hoje me fazem tremer", escreveu.
Diz que usava
álcool para poder ter boas noites de sono, até que isso virou um circulo
vicioso. "Era a única maneira de poder dormir. Usava a bebida sozinho em
meio à desgraça", disse na obra.
O nadador sempre
foi alvo da imprensa de seu país quanto a questionamentos sobre sua
sexualidade, o que sempre gerou desgaste no campeão, que visivelmente não
gostava desse tipo de pergunta sobre sua vida particular.
Em 2009, o jornal
"The Daily Telegraph" chegou a insinuar que ele tinha um caso com o
desconhecido nadador brasileiro Daniel Mendes, ao relatar que os dois viajaram
juntos de férias para o Brasil e que chegaram a morar na mesma casa, na
Austrália, por três anos. O australiano teve que falar na época sobre isso e
cita em sua biografia a chatice que era ter esse tipo de questão à sua sombra.
"Em várias
ocasiões respondi questões sobre minha sexualidade com a mídia abertamente e
honestamente... Desde então, minha situação não mudou", falou Thorpe, em
uma das declarações sobre o assunto. "O que acho mais doloroso é ver as
pessoas questionando minha integridade, e que isto seria algo com o qual me
sentiria embaraçado ou quisesse esconder. Não quero ofender alguém ficando
nervoso ou frustrado com isso."
Os ex-nadadores
brasileiros Gustavo Borges e Fernando Scherer, o Xuxa, foram contemporâneos de
Thorpe e chegaram a ter contato com o australiano em competições
internacionais. Gustavo diz que nunca percebeu no atleta qualquer sinal de que
pudesse ser um jovem infeliz ou com problemas. O que transparecia era seu
espírito de competividade.
"Não, nada,
nunca percebi. Ele parecia ser um cara
determinado, que era pelos resultados e a maneira de competir. Não tinha nada
que identificasse um perfil diferente não, ele parecia até ser um cara bem equilibrado, com muita determinação, não lembro nada que
tivesse chamado atenção, a não ser pela determinação dele de ganhar",
falou Borges.
"Ele foi um
cara que parou muito cedo e ganhou muita coisa jovem. É difícil falar, mas pode
ser que ele tenha tido uma mistura de sentimentos muito jovem. Ele voltou tarde
demais, era extremamente talentoso. Uma pena", continuou.
Xuxa diz que a
maior lembrança que tem no contato é de que Thorpe era um cara extremamente
humilde. E diz que a primeira lembrança que tem dos momentos que pôde
presenciar era de sua disposição em tratar muito bem a todos. "Ele era um moleque atencioso e
carismático. Lembro que ele atendia as crianças e fazia tudo de maneira
profissional. Já vi muito campeão olímpico negar foto até pra atleta em
Olimpíada, mas ele ficava lá atendendo as crianças. Ele sempre tratava muito
bem todo mundo", falou.
"Não posso
comentar sobre a vida pessoal dele, porque não conheço. Mas quando se fala em medicamento e álcool é
uma mistura que não dá uma combinação muito boa. Ele era recordista mundial com
15 anos e depois teve uma parada brusca. Imagino que possa ter perdido o chão.
Não é fácil para um atleta parar de representar seu país, ouvir hino e fazer a
sua nação feliz."
Ian vinha tentando
retomar a carreira desde 2011, mas nunca conseguiu nenhum resultado expressivo.
A TV australiana Network Seven divulgou na terça-feira que o cinco vezes
campeão olímpico está internado na UTI de um hospital em Sydney, na Austrália,
com uma infecção forte que pode causar a perda dos movimentos do braço
esquerdo. Em entrevista à emissora britânica BBC, um porta-voz do nadador
confirmou a hospitalização do australiano, mas negou que ele estivesse em
cuidados intensivos.
A agência Reuters
publicou entrevista com James Erskine, empresário de Thorpe, que afirmou que o
caso é de risco à vida do australiano, mas considerou que este pode ser o fim
da carreira do atleta. "De um ponto de vista competitivo, eu acho que ele
não vai nadar competitivamente de novo", afirmou.
Falta de privacidade pode causar distúrbio
A psicóloga esportiva Maira Ruas ressaltou que não
há como fazer qualquer avaliação do caso sem acompanha-lo de perto, mas viu algumas situações que podem ter sido
determinantes para a depressão do ex-campeão olímpico.
A profissional
entende que apenas o fato de ter ganhado tudo muito cedo pode não ter sido o
diferencial, mas sim a exposição de sua
vinda íntima e a sensação de ter que prestar contas à sociedade pelos padrões
impostos.
"Era uma pessoa muito jovem, que estava em formação
de sua fase adulta e tinha uma imensa responsabilidade na vida pessoal e não
tinha privacidade na vida pessoal. Ela é julgada o tempo todo, seja para ganhar
um título ou porque sai junto com fulano ou ciclano; então a questão humana
dele não existe. Ele tem que produzir medalhas e responder questões para a
sociedade, como a opção sexual, sela ela qual for. E isso pode render um
esvaziamento interno e ser o fator desencadeador de depressão e
alcoolismo",
explicou.
"A depressão pode ter origem
fisiológica ou social, com situações externas interferindo. O sucesso de forma
prematura pode ter ajudado a desenvolver algumas características nele."
FONTE: José Ricardo Leite / Do UOL, em São Paulo
sábado, 12 de abril de 2014
Pesquisa revela alto índice de adoecimento mental entre docentes da UFPA
O Ex-Coordenador de
Saúde do Trabalhador da UFPA, Médico, Professor e pesquisador, Jadir Campos,
mestre na área médica e em educação e doutorando em Saúde do Trabalhador na
Universidad Internacional Tres Fronteras, de Buenos Aires (Argentina),
conversou com a Adufpa sobre a correlação entre as políticas para a educação
superior pública no Brasil e o adoecimento docente. Em sua recente pesquisa de
mestrado, intitulada “Trabalho Docente e Saúde: Tensões da Educação Superior”,
que teve como objetivo discutir como as tensões das políticas para a Educação
Superior pública estariam levando ao sofrimento e, em consequência, ao
adoecimento docente, foram obtidos dados que sugerem que o fomento ao
produtivismo e à competitividade, estimulados, sobretudo, pela Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), estão gerando adoecimento
mental entre professores da UFPA. De acordo com a pesquisa, uma taxa de 14,13%
dos pedidos de afastamento do trabalho de docentes da universidade, entre 2006
e 2010, esteve relacionado a problemas com a saúde mental.
Adufpa: De acordo
com sua pesquisa, qual o quadro da UFPA quanto à saúde dos docentes?
Jadir: O quadro da
UFPA praticamente se repete em todas as IFES brasileiras, porque isto é uma
característica da própria política que o Ministério da Educação (MEC) vem
adotando com relação ao trabalho docente. Esta pesquisa, iniciada através do
mestrado em Educação, enfoca as políticas que foram criadas pelo governo
federal para a educação superior e como elas, de alguma forma, comprometem o
trabalho docente, que é intensificado e, na maioria das vezes, não é percebido
pelo professor. Essa precarização do trabalho leva a uma situação de sofrimento,
inicialmente, e se aquela pessoa que está passando por este sofrimento não
tiver condições de superá-lo irá adoecer, pois o docente está submetido a uma
série de exigências por conta da política de educação do MEC.
O adoecimento que
estamos discutindo aqui é o mental, porém existem outras doenças inerentes à
docência: Lesão por Esforço Repetitivo (LER) / Distúrbio Osteomuscular
Relacionado ao Trabalho (DORT), lombalgia, problemas de pregas vocais com
alterações da voz (disfonia), entre outros. Porém, neste trabalho, estou me
referindo a um problema muito sério, que é o problema da saúde mental. Quando
passei pela coordenadoria de saúde do trabalhador da UFPA, tivemos o trabalho
de fazer esse levantamento, porque até então não existia absolutamente nada em termos
de adoecimento do docente da UFPA, o que seria desvelado se o Projeto do Perfil
Epidemiológico dos servidores da UFPA, elaborado por nós, tivesse sido
implantado. Nós, modo geral, servidores da UFPA, não sabemos do que adoecemos
nem do que morremos. Despertou-nos e inquietou-nos a quantidade de professores
que nos procuravam com problemas de saúde mental. E, fizemos um levantamento de
2006 a 2010, levando em consideração aquele professor que nos procurava para se
afastar, de alguma forma, em consequência de adoecimento mental. A surpresa – e
eu não diria tão surpresa assim – foi a alta incidência de doenças mentais em
professores da UFPA. O percentual de professores que pediram afastamento das
atividades acadêmicas devido ao quadro de adoecimento mental, neste período,
foi de 14,13%. Isto é alto, pois se compararmos com a doença que mais afasta os
trabalhadores modo geral, na sociedade, que é a LER-DORT que é da ordem de
7,2%, chegamos a conclusão que no caso da UFPA o adoecimento mental afasta
quase que o dobro do percentual que a LER – DORT afasta na sociedade em geral.
Ou seja, o índice é muito alto e, por isso, preocupante.
Adufpa: Quais as
possíveis causas do adoecimento docente?
Jadir: O que
realmente está ocorrendo com o docente é que ele não está percebendo que está
sendo “usado” e, digamos assim, imiscuído em um contexto político em que pela
falta ou pela exiguidade de recursos financeiros - já que a universidade não
arca com as necessidades materiais e de recursos para o desenvolvimento de pesquisas
-, os dois órgãos mais importantes de fomento à pesquisa, a Capes e o CNPq,
fazem uma triagem produtivista, tornando os docentes bodes expiatórios de um
esquema perverso ao professor. Deste modo, o professor vai atrás deste fomento
para conseguir recursos para sua pesquisa, para ter acesso às tecnologias,
bolsistas etc. O professor que consegue isto acredita que o conseguiu por ser
“gênio”, porém, o que não se percebe é que isso o coloca refém do produtivismo,
da competição, e impõe a exigência de um grande número de publicações em
revistas com qualis elevados. Contudo, eles acreditam que essa realidade faz
parte do contexto da universidade e, esta situação é pior na Pós-Graduação, não
percebem sua lógica real. Ele acha que “é gênio” por ter conseguido garantir
todas suas publicações e aprovação de seus projetos, não percebe que isto na
verdade é uma banalização, ou seja, em função dos exíguos recursos
disponibilizados para a universidade, é feito uma triagem, e essa triagem é
feita assim, dando maior possibilidade de pesquisa àquela pessoa que tem o que
chamamos de ‘produtivismo consciente’, que publica muito, que tem seus artigos
aprovados em periódicos qualis A, B. Os órgãos de fomento à pesquisa
aproveitam-se disto e dizem que os professores tem plena consciência, mas não é
bem assim. Quando você tem, de alguma forma, uma retribuição simbólica e
remuneratória por algo que você faz, por exemplo: você desenvolve um trabalho,
esse trabalho é aquilatado para que você receba um prêmio ou conquiste destaque,
essa possibilidade de ter seu trabalho avaliado como o melhor, naturalmente
gera no organismo substâncias que dão sensação de bem estar, neurotransmissores
que provocam sensação de bem estar e nos “agiganta”, que nós chamamos de
endorfinas. A pessoa que se vê envolvida neste contexto, com este “estímulo” à
pesquisa e disponibilidade de recursos por ser “gênio”, acredita realmente que
isto é ótimo, maravilhoso, a ponto de intensificar ainda mais seu trabalho. No
meio deste bojo até o seu lazer é tomado. O professor se vê tão envolvido neste
processo, que faz isso porque acredita que esta é a única e melhor forma de se
destacar na carreira e conseguir recursos para pesquisa, expressando sua
capacidade e adquirindo um status diferenciado em sua categoria. Com o tempo, a
exaustão emocional e o cansaço, entre outras contradições, vão fazendo com que
este docente apresente sofrimento e se não possuir estrutura emocional adequada
adoece sem se perceber. Esse que é o maior problema. O docente não tem
consciência do seu processo de adoecimento. É preciso criar políticas que façam
o professor perceber que está dentro de uma rede perversa e que isso poderá
levá-lo a adquirir doenças psicossomáticas, depressão, Síndrome de burnout
entre outras.
Não se iludam,
todas essas políticas criadas pelo MEC tem um viés de controle. Por exemplo,
quando se impõe uma avaliação quatitativista aos docentes, com uma série de
requisitos e pontuações que devem ser preenchidas, isso faz parte de uma
política de controle. A Lei de Inovação Tecnológica é outra questão
perigosíssima, pois ela incentiva o professor a ser além de produtivista,
empreendedor. Essa Lei direciona a pesquisa aos interesses mercantis,
sujeitando os docentes a pesquisarem de acordo com o retorno que os resultados
da pesquisa darão ao mercado, às empresas e/ou indústria; além disso, outras
áreas que não estão ligadas aos interesses industriais e de mercado, são
penalizadas, dificilmente tem seus projetos aprovados porque não são
“rentáveis”. Aquilo que existia nas universidades em termos da autonomia não
existe mais. Tornou-se o que nós chamamos de ‘autonomia consentida’. Você vai
até onde a instituição acha que é permitido ir. O próprio docente está
comprometido em sua autonomia intelectual, ou seja, ele não tem mais a
liberdade de pesquisar o que ele julga e percebe ser importante para a
sociedade e para a universidade. Ele tem que pesquisar aquilo que é considerado
valido e que dará retorno, no sentido de recompensar monetariamente. Ele
acredita que está sendo recompensado intelectualmente, mas infelizmente não
está.
Adufpa: Quais são
as características apresentadas pelos docentes quando atacados em sua saúde
mental?
Jadir: Existem
várias doenças mentais, porém duas chamam mais a nossa atenção no que tange a
saúde do professor, a Síndrome de burnout e a depressão. A Síndrome de burnout,
que é intimamente relacionada ao exercício docente e a depressão, que hoje é a
segunda causa que mais afasta do trabalho e, em 2020, será a doença que mais
afastará do trabalho, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Hoje,
a depressão só perde para LER / DORT, primeira doença que mais afasta
trabalhadores de suas atividades.
A pessoa com
depressão é aquela pessoa que constantemente se afasta, não tem envolvimento
com os colegas, com os pares, procura se isolar. É aquela pessoa que está
comumente irritada e não deixa com que ninguém se aproxime ou aborde-a. O
cansaço na pessoa que está deprimida é muito frequente, a pessoa sempre relata:
“estou cansada”, “estou exausta”, “não consigo produzir o que eu acho que
deveria produzir”. Mas, como tem que competir, ela busca de qualquer forma
produzir. O docente com quadro depressivo apresenta, constantemente, dor de
cabeça e pode apresentar perda do apetite tanto nutricional como sexual.
A Síndrome de
burnout tem características especiais. São três as principais características
desta Síndrome: a exaustão emocional; a falta de envolvimento com o trabalho, a
pessoa perde o interesse e já não tem mais o mesmo entusiasmo de antes; e,
finalizando, a despersonalização. A despersonalização, eu considero como médico
um termo muito forte, isto é para a escola inglesa, nós, da escola brasileira,
chamamos de desumanização. A desumanização se expressa naquele professor que é
questionado pelo aluno e responde com pedras na mão e não deixa ninguém sequer
intervir, adotando posturas autoritárias: “Aqui o professor sou eu, fique
calado”, ou adota posturas similares quando abordado pelas demais pessoas.
Existem muito mais
problemas que comprometem a saúde mental, porém essas duas são as mais
expressivas no contexto do adoecimento do docente em função de todas essas
mudanças impostas ao mundo do trabalho do professor universitário.
Adufpa: Como
ex-coordenador de saúde do trabalhador da UFPA, qual a sua avaliação sobre o
papel institucional da universidade para combater esse quadro de elevado
adoecimento mental do docente?
Jadir: Quando eu
estava na coordenadoria nós fizemos várias discussões sobre o problema do
adoecimento de docentes na UFPA. Essas discussões envolveram a Adufpa e o
Sindicato dos Técnicos da UFPA (Sindtifes-PA). É lamentável, mas não há
realmente um envolvimento Institucional da Administração Superior neste
sentido. Não há uma política preocupada com isso. Nós tivemos algumas vezes
oportunidade de levar ao atual reitor essas taxas observadas no período de 2006
a 2010. Elaboramos um projeto, o qual está na Pro-Reitoria de Gestão de
Desenvolvimento de Pessoal (Progep), que funcionaria como uma intervenção sobre
a qualidade de vida do trabalho dos servidores da UFPA. Infelizmente, isso não
chegou a ser implantado. Não sei como anda esse projeto atualmente. O projeto
foi criado, à época, por mim e pela professora Elen Carvalho, do Instituto de
Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), e está disponível como parte do acervo da
Progep. É lamentável que a UFPA não dê a devida importância a um tema como
este, pois se preocupar com a qualidade do trabalho deveria ser um hábito
Institucional.
Christophe Dejours,
que é um autor que pesquisa sobre a questão do sofrimento e adoecimento no
trabalho, chama esse processo, vivenciado pelos docentes, de psicodinâmica do
trabalho, ou seja, você está envolvido no trabalho, mas não tem consciência do
processo e organização dele. O trabalho está posto e você vai realizar. Mas nem
sempre consegue. Na maioria das vezes você se aproxima do que lhe foi pedido e
cria mecanismos para que não sofra por aquilo. O problema é que hoje, as
avaliações estão ai, tudo é avaliado. Não que as avaliações não sejam
pertinentes, mas depende do tipo de avaliação, de como essa avaliação é
conduzida. Isso é que deve ser discutido. Mas, infelizmente, a UFPA não tem
dado importância a este problema, pois eu desconheço, até então, essa
preocupação institucional.
FONTE: ADUFPA - SEÇÃO SINDICAL - ANDES SN
segunda-feira, 31 de março de 2014
Chico Anysio conta como venceu a depressão
Psiquiatra e sobrinha do humorista lembra que o tio tratava a doença com naturalidade. “Não escondia isso de ninguém”.
Durante muitos anos, Chico Anysio mostrou ter várias faces. Mas uma, ele só revelou pouco antes de morrer.
“Eu tenho um psiquiatra há 24 anos. E se não fossem os remédios que a psiquiatria dá. Se não fosse isso, eu não teria conseguido fazer 20% do que eu fiz”.
Chico Anysio sofria de depressão.
“Eu entendi que era depressão e eu pude pagar os remédios. E eu pude pagar ao psiquiatra, então eu venci. Porque ela é vencível”, conta o humorista.
O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria foi quem teve a ideia de entrevistar Chico Anysio. Ele queria que as palavras do humorista fossem usadas em um congresso contra o preconceito a doenças mentais.
“A depressão atinge de 20 a 25% da população. E significa que 20 a 25% da população, tem, teve ou terá um quadro de depressão ao longo da vida. Portanto pode atingir a qualquer pessoa, em qualquer idade”, explica Antonio Geraldo da Silva, presidente da ABP.
A Joseane sofreu calada por quase um ano os efeitos da depressão e do preconceito. “A família não entende. Acha que é frescura. Que é falta de vergonha na cara. Que pobre não pode ter depressão”, diz Joseane Gomes, auxiliar de serviços gerais.
“Só que um dia eu fui para o trabalho e lá eu tive a crise que foi muito forte. Eu chorava muito. Eu sentia uma angustia muito grande. Uma coisa muito forte. Que eu não tinha vontade de nada. De fazer nada. Eu só tinha vontade de morrer. Pra mim, se eu morresse acabava os problemas”, revela Joseane.
Só então a Joseane foi buscar ajuda. E encontrou em uma unidade especializada em saúde mental, da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. “Os pacientes com depressão que chegam aqui. Tem um perfil de uma clientela mais grave. Os pacientes chegam com depressão e com alguns sintomas a mais. Com ideias suicidas, sintomas psicóticos. Estados avançados de inapetência de não querer comer, de se cuidar. Parar de tomar banho. Auto cuidado já mais deteriorado”, explica Christiane Andreolo, psiquiatra.
Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, aproximadamente dois terços das pessoas com depressão não fazem tratamento. Entre os pacientes que procuram o médico, apenas 50% são diagnosticados corretamente.
“É a mesma coisa que você falar pra quem usa óculos. Tira o óculos, enxergue, esforce pra enxergar, você vai conseguir. Claro que não vai conseguir. A depressão também você não vai conseguir sair dela”, afirma Antonio Geraldo da Silva, presidente da ABP.
“Você se conscientizar que você está com este problema não é fácil. Você acha que os problemas que existem na sua vida que te fazem ficar assim, mas não é, entendeu? Você quando tem depressão, você reage de maneira errada a problemas que todo mundo tem”, explica Paulo Malta Santos, funcionário público.
O Paulo só começou o tratamento depois de muita insistência da família. “As pessoas tendem a confundir com como se fosse um tipo de loucura. Muita gente têm até vergonha de procurar ajuda. Mas não é loucura. É um problema psíquico de fundo emocional que hoje em dia muita gente tem”, diz Paulo.
“O difícil é as pessoas entenderem como é que pessoas aparentemente normais podem sofrer de depressão. Aí, tem um outro tipo de preconceito que achar que depressão inutiliza as pessoas e elas são malucas”, explica a psiquiatra Ana Alice.
Ana Alice é psiquiatra e sobrinha de Chico Anysio. E lembra que o tio tratava a doença com naturalidade. “Meu tio não escondia isso de ninguém. Nunca escondeu. Falou pra família inteira. Conversava comigo. Muito natural”, revela Ana Alice.
“Ontem eu tava conversando com uma paciente minha sobre ‘por que é que eu tenho depressão? Será que foi porque eu não consegui lidar com tal situação. Eu sou frágil por causa disso?’ Depressão é uma doença genética. Hereditária. Mas ninguém fica deprimido porque quer”, explica a sobrinha de Chico Anysio.
Rico sabe sobre o que Ana Alice está dizendo. Ele é primo dela e filho de Chico Anysio. “Eu já deprimi quando minha mãe morreu. Quando ele morreu eu fiquei também deprimido. Não tive que tomar remédio nenhum. Eu faço terapia e não tive que me medicar. Mas certamente eu fiquei deprimido”, conta Rico.
Ao falar abertamente sobre o problema, o filho parece ter entendido o último conselho do pai.
“Quanto mais pessoas me ouvirem falar sobre a depressão, mais pessoas vão deixar de ter vergonha de ser deprimido”, disse Chico Anysio.
FONTE: globo.com/fantástico
Veja Vídeo Com a Entrevista: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/03/em-depoimento-inedito-chico-anysio-conta-como-venceu-depressao.html
Veja Vídeo Com a Entrevista: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/03/em-depoimento-inedito-chico-anysio-conta-como-venceu-depressao.html
quarta-feira, 19 de março de 2014
Escutem o louco
O homem que empurrou uma passageira
nos trilhos do metrô desnuda o momento perturbador vivido pelo Brasil
De repente, o taxista aumentou o som
da pequena TV acoplada no console do carro. No banco de trás, eu parei de ler e
afinei os ouvidos. Era meio-dia da sexta-feira de Carnaval (28/2). O homem que,
dias antes, havia empurrado uma passageira nos trilhos do metrô de São Paulo
tinha sido preso. A mulher teve o braço amputado. O agressor sofre de
esquizofrenia, destacou o apresentador de TV. “Louco”, decodificou de imediato
o taxista. Doença triste, disse o apresentador na TV. Ao ser preso, continuou o
apresentador, o agressor afirmou que a empurrou porque sentiu raiva. Essa parte
o taxista não escutou. Algo lá fora o havia perturbado. Colou a mão na buzina,
abriu a janela do carro e xingou o motorista ao lado, que tentava mudar de
pista. Perdigotos saltavam da sua boca enquanto ele empunhava o dedo médio com
uma mão que deveria estar no volante. Fechou a janela, para não perder a
temperatura do ar-condicionado, e voltou a falar comigo. “A polícia tem de
tirar os loucos da rua”. A quem ele se refere, pensei eu, confusa, olhando para
fora, para dentro. Era ao louco do metrô.
Há algo de trágico nos loucos. E não
apenas o que é definido como loucura nessa época histórica. Há outra tragédia,
que é a de não ser escutado. Sempre que alguém com um diagnóstico de doença
mental comete um crime, a patologia é usada para anular as interrogações e
esvaziar o discurso de sentido. A pessoa não é mais uma pessoa, com história e
circunstâncias, na qual a doença é uma circunstância e uma parte da história,
jamais o todo. A pessoa deixa de ser uma pessoa para ser uma doença. Se há um
histórico, é o de sua ficha médica, marcada por internações e medicamentos – ou
a falta de um e de outro. Esvaziada de sua humanidade, o que diz é
automaticamente descartado como sem substância. A doença mental, ao substituir
a pessoa, explica também o crime. E, se não há sujeito, não é preciso nem
pensar sobre os significados do crime, nem sobre o que diz aquele que o
cometeu.
Mas o que essa escolha – a de reduzir
uma pessoa a uma patologia e a de anular os sentidos do seu discurso – diz da
sociedade na qual foi forjado esse modo de olhar? Se Alessandro de Souza
Xavier, 33 anos, o homem que na terça-feira (25/2) empurrou Maria da Conceição
Oliveira, 28, no metrô, for escutado, há algo de particularmente perturbador na
justificativa que confere ao seu ato. Alessandro diz: “Fizeram um mal pra mim,
e eu descontei. Fiz porque estava nervoso com o pessoal do mundo.”
O louco não expressa apenas a sua
loucura.
Ele também denuncia a insanidade
da sociedade em que vive
O que há de particularmente
perturbador nessa fala é que, quando escutada, ela desnuda o atual momento do
Brasil. Vale a pena lembrar que o louco é também aquele que diz explicitamente
do seu mundo. Sem mediações, ao dizê-lo ele pode sacrificar a vida de outros,
assim como a sua. Vale a pena lembrar ainda que o louco não expressa apenas a
sua loucura. Ele denuncia também a insanidade da sociedade em que vive.
Ao interrogar sobre os sentidos do
que Alessandro diz, quando explica por que empurrou Maria, é necessário olhar
para os outros crimes que viraram notícia nos últimos dias. Nenhum deles, até
agora, relacionado a doenças mentais. Torcedores do São Paulo bateram com
barras de ferro em um torcedor do Santos que esperava o ônibus. Bateram nele
até matá-lo. Ao deparar-se com blocos de Carnaval interrompendo o trânsito, na
Vila Madalena, bairro de classe média de São Paulo, um homem acelerou o carro e
feriu dez pessoas. Quem estava perto o arrancou do veículo e passou a
agredi-lo. Quando ele conseguiu fugir, destruíram o carro. Um casal de lésbicas
foi espancado ao sair de um bloco de Carnaval, no Rio. Uma delas teve a roupa
arrancada. Apenas uma pessoa na multidão ao redor tentou ajudá-las. Em Franca,
no interior de São Paulo, um adolescente correu atrás de um suspeito de assalto
e lhe aplicou um golpe chamado de “mata-leão” (estrangulamento). O suspeito, de
22 anos, teve um infarto após ser imobilizado e morreu no hospital. Um morador
de rua foi linchado em Sorocaba (SP) por ter pegado um xampu de um
supermercado. Teve afundamento do crânio. No Rio, mais um adolescente foi
amarrado e agredido depois de furtar um celular. Linchamentos eclodiram em todo
o país depois do caso do garoto acorrentado com uma trava de bicicleta no
Flamengo. Nas semanas anteriores, dois manifestantes acenderam um rojão num
protesto no Rio, matando um cinegrafista. Na Baixada Fluminense, um homem
executou um suspeito de assalto com três tiros, em plena rua, durante o dia,
assistido por vários. Mais de 40 ônibus foram incendiados em São Paulo em 2014.
A lucidez do louco é a de não vestir
como razão a nudez do seu ódio –
ou do seu medo
O discurso do louco é encarado como
uma afirmação (e confirmação) da sua loucura, o que é outra forma de não
escutá-lo. No caso de Alessandro, uma das provas da loucura do louco teria sido
ele dizer que jogou Maria nos trilhos do metrô por raiva e também por vingança.
Explícito assim. Outra prova da loucura do louco revelou-se ao afirmar que não
a conhecia, que a escolheu de forma aleatória. “Desconexo” – foi o adjetivo
usado para definir o discurso de Alessandro. Sua vítima não era torcedora do
Santos, não era lésbica, não tinha furtado um celular ou um xampu, as desrazões
interpretadas como razões. Por que, então? O louco confessou: Maria não era
Maria, já que não a conhecia nem sabia o seu nome, mas o “pessoal do mundo”. A
lucidez do louco talvez seja a de não vestir como razão a nudez do seu ódio –
ou a nudez do seu medo. Por isso também é louco.
Diante da violência que irrompe no
Brasil em todos os espaços, talvez seja a hora de escutar o louco. Talvez o
fato de ele atacar no metrô não seja um detalhe descartável, uma coincidência
destituída de significado. No mesmo dia em que Alessandro foi preso, morreu no
hospital Nivanilde de Silva Souza, aos 38 anos. No mesmo dia em que, na Estação
da Sé, Alessandro empurrou Maria, na Estação da Luz um trem atingiu a cabeça de
Nivanilde. Ela tinha dito a um estagiário da Companhia Paulista de Trens
Metropolitanos (CPTM) que estava grávida, o que lhe assegurava o direito a
entrar no vagão especial. O estagiário disse a ela que teria de apresentar um
documento comprovando a gestação. Os dois teriam se empurrado, seguranças deram
voz de prisão à Nivanilde. Na confusão, ela teria caído na plataforma. O trem
bateu na sua cabeça.
No início de fevereiro, a linha-3
vermelha do metrô parou por cinco horas depois da falha em uma porta na estação
da Sé, a mesma em que Alessandro empurrou Maria. No verão paulistano mais
quente desde 1943, o ar-condicionado foi desligado. Pessoas vagavam pelos
túneis, algumas desmaiaram, grávidas e velhos esperaram dentro de vagões
abafados por horas. Pelo menos 19 dos 40 trens que circulavam na linha foram
depredados.
O outro, qualquer outro, tornou-se
inimigo
e competidor por um lugar no trem que
nos engole e nos cospe em
seu
vaivém automático
Os protestos de junho de 2013
começaram por causa das tarifas do transporte público, em São Paulo os 20
centavos de aumento da passagem. Naquele momento, milhares romperam o
imobilismo, no concreto e no simbólico, e passaram a andar por cidades em que
não se andava, vidas consumidas em ônibus e metrôs superlotados. O aumento de
20 centavos foi cancelado, mas o péssimo transporte público continuou
mastigando o tempo, desumanizando gente. Basta parar para esperar o trem nos
horários de pico para ser empurrado, xingado, odiado. O outro, qualquer outro,
tornou-se nosso inimigo e nosso competidor por um lugar no trem que nos engole
e nos cospe em seu vaivém automático. Somos passageiros que não passam, e a
tensão dessa impossibilidade cotidiana pode ser apalpada. A violência é gestada
como uma promessa para o segundo seguinte.
Então o louco vai lá e empurra a
mulher sobre os trilhos. Rompe o imobilismo e empurra aquela que espera. Porque
é louco. Caso isolado, nenhuma conexão com nada, desconexo é o seu discurso,
fora da história é o seu gesto, a insanidade é só dele. Basta eliminá-lo,
tirá-lo de circulação, para que a sociedade brasileira volte a ser sã. E o
metrô de São Paulo um espaço de convivência agradável e pacífico, marcado pela
cordialidade.
Talvez estejamos todos não loucos,
mas no lugar do louco. Já não nos subjetivamos, tudo é literal. Nos mínimos
atos do cotidiano nos falta a palavra que pode mediar a ação, interromper o
gesto de violência antes que se complete. Mas talvez estejamos no lugar do
louco especialmente porque nem escutamos, nem somos escutados. E quem não é
escutado vai perdendo a capacidade de dizer. Só resta então a violência.
Reprimir os protestos é uma forma
brutal
de não escutar o que dizem aqueles
que ainda se preocupam em dizer
Os protestos iniciados em junho
pelos 20 centavos e agora centrados na Copa do Mundo são um dizer. Responder a
eles com repressão – seja da polícia no espaço público, seja em projetos de lei
que transformam manifestantes em terroristas, seja anunciando que o Exército
vai para as ruas em tempos de democracia – é uma forma brutal de não escutar
aqueles que ainda se preocupam em dizer. É talvez a maior violência de todas.
É preciso ser muito surdo para
acreditar que prender todos, “deter para averiguação”, criminalizar
manifestantes é suficiente para voltarmos a ser o Brasil cordial e contente que
nunca existiu, 200 milhões em ação torcendo pela seleção canarinha. Que o dizer
de quem deseja um Brasil diferente seja hoje expressado no campo simbólico do
futebol é mais uma razão para escutá-lo, ao mostrar que estamos diante de novas
construções do imaginário.
Escutem o louco. Para não colocar
aqueles que protestam no lugar do louco, no lugar daquele que não é escutado
porque não teria nada a dizer. E depois surpreenderem-se com a resposta
violenta, convencendo-se de que não têm nada a ver com isso.
FONTE: BRASIL EL PAÍS / Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista.
Como se fabricam crianças loucas
Os manicômios não são passado, são
presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico Pinel, em São Paulo,
mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no
Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos
períodos, muitas vezes sem diagnóstico que justificasse a internação, a mando
da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807 dias de confinamento. E de José:
1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada na primeira década
deste século
Em uma noite de novembro de 2007, a
psicóloga Flávia Blikstein escutou de uma menina duas perguntas. E descobriu
que não tinha respostas. Flávia trabalhava num Centro de Atenção Psicossocial
(CAPS) infantil, em São Paulo, e encontrava-se na ambulância para levar a
garota para sua primeira internação psiquiátrica. Maria, como aqui será
chamada, tinha 14 anos. Era negra, alta e magra. Falava pouco, frases curtas.
Gostava de brincar de boneca e de desenhar. Às vezes pintava as unhas, arrumava
o cabelo, anunciando a adolescência. Maria se molhava o tempo todo, em pequenos
rituais. Abria a torneira, fazia uma conchinha com as mãos e molhava os pés, as
pernas, os braços. Fazia isso em qualquer lugar, causando vergonha à mãe.
Talvez Maria estivesse esculpindo com a água os limites do próprio corpo.
Quando fez a primeira pergunta à Flávia, ela ainda tinha as pontas dos dedos
úmidas, e o seu olhar também era molhado:
- Por que eu vou ficar aqui?
Flávia descobriu que não tinha
resposta.
Maria fez então a segunda pergunta:
- Quem tá aí? Quem vai dormir no
quarto comigo?
Flávia descobriu que não tinha
resposta também para essa. Não tinha resposta porque, ao contrário do que
costuma acontecer quando crianças e adolescentes nos mostram a face do abismo,
ela tinha escutado as perguntas. Escutado mesmo. A “menina louca” tinha
indagado sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o
primeiro passo para dentro de uma instituição psiquiátrica. Talvez Maria
intuísse que esse passo poderia ser longo. Talvez Maria adivinhasse que os
dentes do sistema estavam à sua espera, logo ali.
Flávia abraçou Maria. E pediu
desculpas por não saber responder. Maria entrou, carregando olhos molhados e
pontos de interrogação.
A “menina louca” tinha indagado
sobre a estrutura do Estado e da sociedade que a obrigava a dar o primeiro
passo para dentro de uma instituição psiquiátrica
O que Maria perguntou à Flávia,
perguntou a todos nós: por que, no século 21, crianças e adolescentes
brasileiros, a maioria filhos de famílias pobres, continuam a ter suas vidas
mastigadas num hospital psiquiátrico. A “criança louca” fez aos normais a
pergunta mais lúcida: por que a condenavam a uma existência de manicômio. A
habitar um mundo de dor, vagando entre paredes, desvestindo a si mesma para
vestir um uniforme, sem direito ao desejo. Por que lhe negavam a humanidade tão
cedo.
Flávia não pôde esquecer as
perguntas, menos ainda a sua falta de respostas. Dedicou-se a buscá-las.
Encontrou-as no arquivo do Núcleo da Infância e da Adolescência (NIA) do Centro
de Atenção Integrada em Saúde Mental (CAISM) Philippe Pinel. O Pinel é uma das
instituições de referência para internação de crianças e adolescentes com problemas
mentais no estado de São Paulo.
Flávia sabia que aquilo que se costuma chamar
de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o para falar. Fechou-se na pequena
sala bordada de estantes durante todos os sábados de um ano inteiro. Analisou
451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro de 2005 e
dezembro de 2009. Destes, 79% das crianças e adolescentes haviam sido
internados apenas uma vez. Os 21% restantes tiveram de duas a sete
reinternações. Alguns casos, que continuaram a voltar ao Pinel, ela acompanhou
também nos anos de 2010 e 2011. Flávia queria saber qual era o percurso que
levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico como primeira
providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado.
O arquivo do Pinel ficava logo
abaixo da enfermaria das crianças e adolescentes. Enquanto pesquisava, Flávia
podia ouvir os gritos. Percebeu, porém, que mais do que gritos havia um
silêncio longo. Um silêncio, nas suas palavras, “estranho e profundo, um
silêncio que não imaginamos num lugar cheio de crianças e adolescentes”. Dentro
do arquivo, não. Os prontuários contavam histórias. Ainda que a voz de meninos
e meninas ressoasse mais nas ausências, nas entrelinhas, os prontuários diziam
de infâncias aniquiladas numa vida de manicômio. E mostravam por que caminhos a
fabricação de crianças loucas é uma verdade profunda do Brasil. Flávia chamava
o arquivo de “sala das almas”. E as almas falavam.
Duas crianças, que se transformaram
em adolescentes no hospital psiquiátrico, contaram histórias que poderiam
ilustrar livros escabrosos sobre os manicômios do passado, mas que se passaram
na primeira década desse século. Aqui, elas serão chamadas de José e de Raquel.
José permaneceu confinado por 1271 dias – ou três anos e cinco meses. Raquel,
por 1807 dias. Ficou trancada dos 11 aos 16 anos – e de lá foi transferida para
outra instituição psiquiátrica. José e Raquel estavam segregados no Pinel, a
mando da Justiça, sob reiterados protestos da equipe técnica. Foram depositados
como coisas no Pinel porque ainda é este o destino dado a crianças como eles no
Brasil.
Por
quê?
Flávia sabia que aquilo que se
costuma chamar de arquivo morto era bem vivo. Então, botou-o para falar.
Analisou 451 casos, correspondentes a 611 internações ocorridas entre janeiro
de 2005 e dezembro de 2009
É preciso prestar muita atenção às
respostas que Flávia encontrou. Sua escuta de três mil horas dentro do arquivo
transformou-se numa dissertação de mestrado em psicologia social na Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Somando-se a trabalhos fundamentais
de outros pesquisadores do tema, tanto em São Paulo como em vários estados do
Brasil, a investigação mostra por que os manicômios persistem apesar das
diretrizes da política de saúde mental e do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA). A Lei nº 10.216, de 2001, orientada pela reforma
psiquiátrica, prioriza o atendimento em rede, em serviços inseridos na
comunidade, perto da família, e determina que a internação só pode ocorrer
depois de esgotados todos os recursos extra-hospitalares. Não é o que acontece
em casos demais.
“Medievais”, “desumanos” e
“criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir os hospícios
desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970
e conquistou avanços significativos nesse século. A pesquisa mostra, porém, que
mesmo instituições e profissionais que tentam fazer diferente são seguidamente
vencidos pelas engrenagens e pela escassez de serviços públicos de base. Na
prática, ainda hoje, é de manicômio e de vida manicomial que se trata em uma
parte significativa dos casos, uma realidade só possível pelo descaso quase
absoluto da sociedade com o destino dessas crianças, em geral filhas de
famílias pobres. Ao fazer o arquivo morto falar, Flávia constrói respostas que
precisam ser escutadas se quisermos, de fato, estancar o crime de fabricar
crianças loucas – e, muitas vezes, também o de conseguir enlouquecê-las.
Raquel nasceu em 1994. A mãe estava
presa por tráfico de drogas, não porque era chefe de uma organização criminosa,
mas porque vendia uma pequena quantidade para sustentar seu próprio vício. Esse
destino é comum nos presídios do país, é também gerador de órfãos de mães
vivas. Pobre demais para dar conta dela, a avó colocou Raquel num abrigo aos
cinco anos. A menina é de imediato descrita como “agressiva”. E, por esse
motivo, é afastada das outras crianças. Passa a morar com o que se chama de
“mãe social”, isolada numa casa nos fundos do abrigo. A escolha, como mostra
Flávia, evidencia que, desde sempre, a resposta à agressividade de Raquel é a
exclusão. Obviamente, também não deu certo. De abrigo em abrigo, Raquel virou
aquela que “não dava certo” em abrigo nenhum.
Talvez valesse a pena perguntar se a
agressividade, ao se olhar para o contexto e as circunstâncias, não era o
principal traço de sanidade de Raquel. Mas o direito à história é o primeiro a
ser arrancado das “crianças loucas”. Ela já tinha quase tantos rótulos quanto
anos de vida: filha de presidiária, abandonada, agressiva, não dá certo...
Raquel só era vista por estigmas e fragmentos.
Ela queria saber qual era o percurso
que levava crianças e adolescentes ao hospital psiquiátrico como primeira
providência – e não como exceção pontual e por tempo determinado
Negra como Maria, ela foi internada
pela primeira vez em 2005, aos 11 anos. Entrou no sistema por ordem da Justiça.
Antes de seguirmos o seu destino, é crucial entender as duas formas de entrada
nas instituições psiquiátricas, identificadas pela pesquisa. Nelas se encontra
uma das chaves para compreender a fabricação das crianças loucas no Brasil
atual. Assim como os caminhos pelos quais é mantida viva a função histórica dos
manicômios como lugar de segregação daqueles que são decodificados como
perigosos para a ordem social, ainda que sejam apenas pobres e abandonados.
Em pouco mais da metade dos casos –
55% – o pedido de internação psiquiátrica foi feito por familiares e por
diferentes serviços da rede de saúde. Nos outros 45%, crianças e adolescentes
foram internados por ordem judicial. Estes são os dois caminhos de entrada nos
hospitais psiquiátricos. A pesquisa mostrou, porém, algumas diferenças
fundamentais para compreender o problema: no período pesquisado, a Justiça
internou mais cedo, por mais tempo e mais vezes. A maioria dos casos era de
adolescentes, mas as crianças respondiam por 20% das internações por ordem
judicial. Pela via da rede de saúde, menos de 6% eram crianças. Por ordem
judicial, o tempo médio de internação era quase o dobro (55 dias contra 30). A
Justiça também foi responsável por 92% das internações com duração maior do que
150 dias. Entre os 14 casos que sofreram internações de quatro a sete vezes, 12
tinham sido confinados por ordem judicial.
Entre eles, Raquel. Dos 11 aos 16
anos, ela foi internada seis vezes no Pinel. A queixa da primeira vez:
“Paciente institucionalizada há oito meses (nome de outro hospital), com
transtorno de comportamento, heteroagressiva (agressividade dirigida a
terceiros), em tratamento ambulatorial pouco resolutivo”. Depois de seis dias,
o Pinel deu alta e a menina foi encaminhada a um abrigo. Oito dias mais tarde,
ela foi novamente internada por ordem judicial: “Paciente portadora de
transtorno de conduta grave. Uma vez no abrigo, voltou a ficar agressiva.
Crítica seriamente comprometida, ameaçadora”. Outros 19 dias de internação, e o
Pinel pediu à justiça que ela tivesse alta. Passada uma semana, o pedido foi
atendido, e ela voltou ao abrigo. Mais três dias e Raquel de novo foi internada
no Pinel por ordem judicial: “Ao retornar ao abrigo volta a apresentar quadro
importante de liberação de agressividade e falta de controle de impulsos”.
Raquel ficou trancada no Pinel por 1004 dias.
Nessas três primeiras vezes,
tornou-se evidente que a justiça internava e o hospital liberava, porque não
havia razão para manter Raquel confinada. Documentos anexados ao prontuário
mostram que a direção da instituição enviou diversos relatórios à justiça,
tanto informando da alta médica da paciente quanto pedindo encaminhamento a um
abrigo e tratamento ambulatorial. Num dos documentos, a direção afirma: “Nosso
hospital está fazendo o papel de Abrigo para esses adolescentes. Sabedores
dessa ilegalidade pedimos com urgência uma resolução para esse problema”. E, em
outro ofício: “Atualmente a adolescente continua residindo na enfermaria para
tratamento de pacientes agudos, encontra-se longe da escola e com enormes
prejuízos psicológicos e sociais”.
“Medievais”, “desumanos” e
“criminosos”. Essas são algumas das palavras usadas para definir os hospícios
desde que a luta antimanicomial se intensificou a partir do final dos anos 1970
A cada três meses, o Pinel mandou
ofícios à justiça. Só foi atendido depois de quase dois anos e nove meses. Mas
a vida de Raquel fora do hospital durou apenas uma semana. Mais uma vez ela foi
internada na instituição. O motivo: “Evolui com episódios recorrentes de
agressividade, fugas necessitando atendimento em unidades de emergência. Há
dois dias em acompanhamento no CAPS sem aderência ao tratamento”. Depois de
mais 413 dias de internação, Raquel fugiu do hospital. Voltou espontaneamente
dois dias mais tarde. Para onde mais ela iria, já que o longo período de
confinamento esgarçou ainda mais os frágeis vínculos familiares e a impediu de
criar novos?
Raquel permaneceu internada mais 244
dias, antes de ser encaminhada a outro abrigo. Quinze dias fora do hospital, e
a justiça mandou-a de volta: “Jogou fora seus remédios, quebrou o vidro da
brinquedoteca, feriu-se, pegou o telefone para se enforcar e fugiu para uma
cidade vizinha dizendo que ia procurar seus avós”.
Na sexta vez, está registrado no
prontuário: “A paciente verbaliza que a maior dificuldade que enfrentou no
retorno ao abrigo foi uma sensação de inadequação na convivência com
adolescentes sem problemas psiquiátricos; infelizmente, criou-se um vínculo
inadequado iatrogênico (provocado pela própria prática médica) de segurança com
o ambiente de internação, o que se configura como Hospitalismo”.
Em outras palavras. Raquel não sabia
mais viver fora do hospital psiquiátrico, seus vínculos estavam dentro da
instituição. Se tinha a algum afeto, era ali. Era no hospital que ela sabia
como se comportar, identificava uma rotina, fazia amigos entre outras crianças
e adolescentes como ela ou realmente doentes. Considerava profissionais de
saúde como parentes. E, mais tarde se saberia, quebrava coisas e agredia
pessoas quando era mandada para o abrigo porque sabia que assim voltaria àquele
que era o único lugar parecido com um lar que tivera na vida.
No total, Raquel ficou trancada no
Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem necessidade. Sua vida cabe em três caixas do
arquivo. Mas esse não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16
anos, ela foi transferida para outro hospital psiquiátrico
Nessa época, a direção do Pinel
mandou mais um ofício à justiça: “Aproveito a oportunidade para dizer da
indignação dessa equipe técnica que, por diversas vezes, acionou o judiciário
solicitando a desinternação desses adolescentes que, na ocasião, precisavam
apenas de um abrigo para moradia e dar continuidade ao atendimento
ambulatorial, tendo assim seu direito constituído”.
No total, Raquel ficou trancada no
Pinel cinco anos. Sublinha-se: sem necessidade. Sua vida cabe em três caixas do
arquivo. Mas esse não foi o fim de sua trajetória manicomial. Em 2010, aos 16
anos, ela foi transferida para outro hospital psiquiátrico.
O diagnóstico que sustentou a
condenação de Raquel a uma vida manicomial é bastante revelador: “transtorno de
conduta”. Segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID),
“os transtornos de conduta são caracterizados por padrões persistentes de
conduta dissocial, agressiva ou desafiante. Tal comportamento deve comportar
grandes violações das expectativas sociais próprias à idade da criança; deve
haver mais do que as travessuras infantis ou a rebeldia do adolescente e se
trata de um padrão duradouro de comportamento (seis meses ou mais)”. Essa
“patologia”, assim como outras que compõem a CID, é contestada por parte dos
psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, assim como por profissionais de outros
campos do conhecimento. Mas, ainda que se aceite que essa doença de fato
existe, o tratamento recomendado é inserção comunitária – e não asilamento.
Em sua investigação, Flávia mostrou
que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido usado de modo
generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais
psiquiátricos. Tanto na internação pela via da rede de saúde como na internação
por ordem judicial, o principal diagnóstico é esquizofrenia. Mas o “transtorno
de conduta” tem aumentado. Numa comparação com uma pesquisa anterior, na qual
Julia Hatakeyama Joia analisou os prontuários do Pinel entre fevereiro de 2001
e agosto de 2005, Flávia constatou que os chamados “transtornos do
comportamento e transtornos emocionais” – dos quais “transtornos de conduta”
correspondem a 75% dos casos – cresceram como motivo de confinamento. Em 2002,
eram causa de 5,26% das internações. Passaram para 7,14% em 2005. E alcançaram
15,2% das ocorrências em 2009. “Em muitos casos, é diagnosticado em crianças
com episódios de descontrole e agressividade, sem que exista uma análise sobre
sua história e contexto de vida”, afirma a psicóloga. Outro dado comparativo de
extrema relevância é que, entre 2001 e 2004, a proporção de internações no
Pinel por ordem judicial era de 23% do total. De 2005 a 2009 saltou para 45%.
Em sua investigação, Flávia mostrou
que o diagnóstico de “transtorno de conduta” tem sido usado de modo
generalizado – e quase displicente – para justificar internações em hospitais
psiquiátricos
O “transtorno de conduta” é bem mais
recorrente na internação por ordem judicial do que na internação pela via da
rede de saúde. É o diagnóstico de um quarto das internações com duração maior
do que 150 dias e por mais de um terço dos casos de crianças e adolescentes
internados de quatro a sete vezes. É o rótulo de Raquel – e também o de José.
Meninos representam quase 80% das crianças e adolescentes internados, um dado
cujas razões precisam ainda ser melhor compreendidas.
José tinha 10 anos quando deu o
primeiro passo para dentro do Pinel, por ordem judicial. Tinha passado, segundo
o relatório da instituição, por “maus tratos, negligências e privação afetiva”.
Apresentou “comportamentos desafiadores e transgressores, o que resultou em
rejeição e abandono familiar, principalmente de sua mãe”. A mãe decidiu
entregá-lo para o pai, na Bahia. No dia da viagem, José recusou-se a ir. Ele
não queria se separar da mãe. Para não ser obrigado a viajar, por duas vezes
tentou se jogar diante dos carros, na rua. A “crise de agitação” levou à sua
primeira internação. A duração: 623 dias.
Quando teve alta, José foi
encaminhado a um abrigo. Permaneceu apenas três dias antes de ser internado
novamente. Dessa vez, ficou trancado por 255 dias. José fugiu. Para onde? Para
a casa de mãe. Mais uma internação, por “agitação psicomotora com intensa
heteroagressividade, baixa tolerância à frustração, sem crítica, e risco de
vida”. Dessa vez, ficou 84 dias na instituição antes de fugir novamente. Para
onde? Para a casa da mãe. Na quarta e última internação, ele permaneceu 309
dias no Pinel. Foi então encaminhado para um abrigo. De onde fugiu. Para a
Bahia, em busca de um lugar e de um afeto.
No total, José ficou 1271 dias
trancado no Pinel: três anos e cinco meses. Sobre José e Raquel, a equipe
técnica do hospital enviou um ofício à Justiça, em 2008: “(...) Estão em alta
médica, mas permanecem nesta enfermaria psiquiátrica para tratamento de
pacientes com transtornos mentais agudos, privadas de ter uma vida digna, por
não terem retaguarda familiar e não existirem vagas em abrigos”. Sobre esse
destino, Flávia afirma: “As internações são motivadas por uma combinação
complexa, que resulta numa situação de vulnerabilidade. A resposta da
internação psiquiátrica, além de redutora de complexidade, é ela mesma
produtora de maior sofrimento. A internação por ordem judicial revela uma
concepção sobre a infância e a adolescência pautadas no medo e no perigo.
Propõe uma resposta única a todas as situações, sem considerar diferenças,
singularidades e contextos. Reduz crianças e adolescentes ao status de paciente
psiquiátrico perigoso, produzindo sua cronificação”. É assim que se fabricam
crianças loucas.
Vale a pergunta: fugir pode ter sido
um ato de sanidade de José, na tentativa de não ser enlouquecido? De algum
modo, apesar de tudo e de todos, ele parece acreditar que existe um lugar para
ele, um lugar com afeto. José, Raquel e Maria nos mostram que não há desamparo
maior do que o de uma criança num manicômio. Ninguém está mais sozinho nesse
mundo do que José, Raquel e Maria. Expostos a uma sociedade que, além de não
protegê-los, os enlouquece. Eles fogem, como José, eles quebram tudo, como
Raquel, eles fazem perguntas, como Maria. Mas estão sozinhos. E cada um de seus
atos de resistência é mais um carimbo de sua suposta loucura num arquivo morto.
O desafio exposto pela pesquisa é
também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil. Crianças e
adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade,
junto à família, sem afastamento da escola
Ao analisar os prontuários, Flávia
conseguiu identificar claramente as diferenças entre a internação via rede de
saúde e a internação por ordem judicial. Essas são conclusões cruciais do
trabalho, porque apontam o que funciona e o que não funciona, apontam saídas.
Na rede de saúde, a maior parte dos encaminhamentos é feita pela emergência de
hospitais, o que não é o melhor percurso. Apenas 8% são enviados para
internação por Unidades Básicas de Saúde ou por CAPS (Centro de Atenção
Psicossocial) infantil, que deveriam ser a porta de entrada para crianças e
adolescentes com sintomas de doenças mentais. Esses dados demostram a falta
desses serviços, causando desamparo na população que necessita de assistência
pelo SUS. Em vez de começarem o tratamento pela rede básica, inserida na
comunidade, o iniciam pelo fim e por aquilo que é uma exceção necessária num
mínimo de casos: a internação. A hipótese de Flávia é de que, se houvesse mais
serviços comunitários de saúde mental, como está previsto na legislação, é
provável que a necessidade de internação fosse bem menor. Em vez do hospital
psiquiátrico, uma rede articulada, com investimento maior em equipes de saúde
mental, na capacitação e implantação do Programa de Saúde da Família e de
centros de atenção psicossocial. “A patologização das crianças em situação de
vulnerabilidade social evidencia a precariedade da rede de atenção e cuidado, e
também a insuficiente articulação entre as políticas públicas nos campos da
educação, saúde, habitação e lazer”, afirma.
A diferença é clara na análise dos
dados. Nos casos encaminhados pelos Centros de Atenção Psicossocial, a média de
dias de internação é mais baixa do que pelos outros caminhos. Quando crianças e
adolescentes são cuidados pelos CAPS depois da alta, apenas 3% são
reinternados. “Isso mostra que os serviços comunitários funcionam, mas são em
número insuficiente”, afirma Flávia. “Nos pacientes encaminhados pela rede de
saúde, o hospital funciona como enfermaria de crise. A maioria é de
adolescentes de 15 a 17 anos, em seu primeiro surto psicótico, que são cuidados
e liberados. Já na internação por via judicial, o hospital funciona como
instituição de asilamento.”
O desafio exposto pela pesquisa é
também o de completar a reforma psiquiátrica no Brasil. Crianças e
adolescentes, segundo a legislação, devem ser tratados dentro da comunidade,
junto à família, sem afastamento da escola. A doença, se de fato existe, deve
ser compreendida como uma das várias características – e não como a verdade
única sobre aquela criança e adolescente. Mesmo a internação, se for
necessária, deve ser entendida como uma parte da história – e não como a
história inteira. A internação é um momento, não um destino.
Flávia permanecia das 10h até as 21h
de cada sábado na sala das almas do Pinel. Numa noite, estava tão mergulhada
nos prontuários que se esqueceu da hora e se atrasou para sair. O guarda do
portão recusou-se a deixá-la ir. Eram as regras. Ele não estava ali para pensar
sobre elas, mas para cumpri-las. E Flávia soube o que era estar entre muros – e
não ser escutada. Depois de um tempo que pareceu largo demais, Flávia conseguiu
provar que era uma psicóloga, fazendo um trabalho de pós-graduação para a PUC.
Acredita que o fato de ser branca, loira e de olhos azuis possa ter ajudado na
sua “soltura”. Mas, ao abrir o portão, o segurança alertou: “Na próxima vez,
fica”. Por um momento, trêmula, Flávia teve uma tênue aproximação do que
sentiram Raquel, José e Maria, apenas três entre as centenas de “crianças
loucas” fabricadas nesse século.
Ao final de sua estadia no arquivo
morto que ela descobriu ser vivo, Flávia finalmente tinha as respostas para
Maria.
1) Por que eu vou ficar aqui?
- Porque as instituições que compõem
a rede de atendimento à criança e ao adolescente trabalham de forma
desintegrada e não conseguem atender às suas necessidades.
2) Quem tá aí? Quem vai dormir no
quarto comigo?
- As crianças e os adolescentes que
tiveram seus destinos produzidos ativamente pela desresponsabilização e pelo
abandono.
Maria perguntou. Flávia escutou.
Escutou de fato não quando a ouviu, mas quando fez o movimento de buscar as
respostas. Elas estão aí, mas só provocarão mudança se o Estado, os governos e
a sociedade as escutarem. Se nós as escutarmos. É, afinal, de escuta que se
trata.
Flávia desconhece o paradeiro de
José. Raquel foi libertada ao completar 18 anos. Mas o que há para Raquel
depois do que fizemos com ela? É possível, é moral, é decente dizer à Raquel:
vá estudar, vá trabalhar, vá construir uma vida? “É uma marca tão profunda que
pessoas como Raquel, mesmo saindo da instituição, continuam
institucionalizadas”, diz Flávia. “A institucionalização parece uma grande
máquina que suga a potência humana, criando seres humanos sem desejo. A
institucionalização é a patologia mais grave da saúde mental.”
Aos 19 anos, Raquel hoje perambula
pelas ruas e albergues de São Paulo, ao redor das instituições. Às vezes
declara-se “louca” e é internada por curtos períodos. Raquel sempre pergunta
pelo seu melhor amigo:
- Onde está José?
FONTE: BRASIL / EL PAÍS / Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista.
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